Blog

As 4 maiores lições de vida que Notre Dame me ensinou

06/08/18

*Por Ruth Di Rada:

Oito línguas nativas diferentes, 15 países, 41 adolescentes, entre 15 e 18 anos, e muita (mas, muita mesmo) paixão por liderança e por conhecimento. É assim que tem sido as últimas duas semanas que tenho passado na Universidade de Notre Dame.

O meu nome é Ruth. Eu tenho 15 anos de idade e estou no segundo ano do Ensino Médio. Neste ano, recebi a incrível oportunidade de participar do programa de verão chamado iLED (International Leadership, Enrichment and Development). O iLED é ministrado pelo corpo docente de

Notre Dame, com foco na liderança internacional. Inclui palestras, aprendizado prático, projetos colaborativos, engajamento empresarial e comunitário e muitas atividades extracurriculares. Participo de aulas sobre economia, psicologia, arquitetura, engenharia, entre outras, além de diversos seminários sobre liderança e engajamento.

Desde o dia que cheguei no campus da Universidade e vi prédios maravilhosas, percebi que viveria 14 dias muito interessantes neste lugar.

Contudo, eu mal sabia que aquelas edificações não poderiam ser comparadas com toda a experiência incrível que Notre Dame tem me proporcionado. A cada atividade, a cada aula, a cada conversa que eu tenho com os meus amigos, é como se um mundo repleto de novas possibilidades surgisse, instantaneamente, na minha cabeça. A partir disso, resolvi fazer este post, no qual tentarei contar 4 das diversas coisas que a Universidade de Notre Dame tem me ensinado, tanto dentro, quanto fora das quatro paredes de uma sala de aula.

Espero que através deste texto, eu consiga não só contar um pouco sobre a minha experiência, mas também incentivar você, caro(a) leitor(a), a acreditar e correr atrás de seus sonhos.

1. As diferenças nos tornam iguais

Desde criança, eu sempre fui apaixonada pela diversidade. Porém, só quando entrei no ensino médio, mudei de escola e passei a ter ainda mais contato com pessoas que tinham tido experiências de vida que totalmente divergiam das minhas, percebi o quanto que eu ainda podia sair da minha zona de conforto. Até então, este havia sido um dos momentos nos quais eu mais tive contato com o desconhecido. Porém, mal sabia eu que aquilo não podia se comparar com o que a vida aguardava para mim.

No dia em que cheguei em Notre Dame, conheci a minha roommate (ou seja, a pessoa que iria compartilhar o dormitório comigo). Já a partir deste momento pude perceber o quanto que as diferenças iriam interferir no nosso relacionamento.

Ela se chama Tianyang Hu, mas, como a maioria dos chineses, ela escolheu uma espécie de apelido para facilitar a comunicação. Assim, a chamamos de Cindy.
Nas primeiras vezes que conversamos, foi um tanto estranho, pois crescemos em culturas totalmente diferentes. Mas, com o passar dos dias, percebemos que, além de termos mais semelhanças do que diferenças, ambas nos tornam ainda mais próximas. Assim como eu, Cindy se inscreveu para participar do iLED não só porque queria aprender mais sobre liderança, mas também porque ela tem interesse por diversas áreas do conhecimento, o que torna difícil a tarefa de escolher um só curso na Universidade. Depois disso, passamos horas e horas conversando sobre este assunto, e como o Summer Program, que estamos participando, poderia fazer com que tivéssemos mais certeza sobre a decisão que pode mudar completamente o rumo de nossas vidas: escolher o curso que iremos fazer na faculdade.

Cindy e Ruth (eu), no dia do nosso Prom, que foi o nosso baile de formatura.

Cindy e Ruth (eu), dentro do nosso dormitório, alguns minutos após nos conhecermos.

Em outro momento, no meio de uma aula, o professor nos propôs uma atividade: cada aluno deveria formar uma dupla com alguém imprevisível (ou seja, alguém que eu não conhecesse muito bem). Após isso, nós recebemos 10 minutos e, enquanto o tempo passava, deveríamos tentar listar o máximo de coisas em comum que tínhamos com a outra pessoa. Embora a minha dupla fosse um garoto indiano de 17 anos, enquanto eu sou uma brasileira de 15 anos, conseguimos descobrir mais de vinte coisas que tínhamos em comum. Entre elas, estava o fato de que ambos somos pessoas mais reservadas, mas comunicativas e nossas matérias preferidas na escola são história e matemática. Ganhamos a dinâmica, uma vez que fomos a dupla que conseguiu encontrar o maior número de semelhanças.

Ser diferente não é um problema.

2. Tudo o que temos é o agora


Sim, eu sei. Você provavelmente já leu e ouviu essa frase incontáveis vezes, seja em palestras motivacionais ou até nas legendas das fotos nas suas redes sociais. Mas, quantas vezes já paramos realmente para pensar sobre o real significado dela?

Bem, até alguns dias atrás, eu nunca tinha feito isso. Durante uma aula de Psicologia, discutimos a quantidade de tempo da nossas vidas que gastamos pensando demais no passado e/ou no futuro, e acabamos nos esquecendo de viver o presente.

O grande problema disso é que acabamos focando demais nas coisas que não estão sobre o nosso total controle. Se eu passasse toda a minha estadia na cidade de South Bend pensando sobre o quanto que eu poderia ter estudado mais inglês, ao invés de melhorá-lo, enquanto converso com os meus colegas estrangeiros, ou se gastasse tempo demais pensando sobre todas as provas que terei na minha escola quando voltar para o Brasil, eu deixaria de viver o instante.

Como diria Jorge Larrossa, “é experiência aquilo que “nos passa”, ou que nos toca, ou que nos acontece, e ao nos passar nos forma e nos transforma”. Para que possamos vivê-las, é necessário que nos coloquemos dispostos a vestir a famigerada “cara de pau” quando necessário, sem se preocupar tanto com o que já aconteceu ou ainda acontecerá em um futuro distante. Não consigo contar quantas vezes, durante o meu intercâmbio, já disse uma frase em inglês gramaticalmente errada, por exemplo. Mas, se eu não estivesse assumindo alguns riscos e me colocando de maneira mais vulnerável, a minha experiência aqui não estaria sendo tão singular.

Sem dúvidas, é absolutamente importante aprendermos com o passado e planejamos o nosso o que está por vir. Entretanto, focar 100% no objetivo do amanhã, assim como pensar naquilo que podíamos ter feito diferente ontem, impede que aproveitemos as dádivas e os aprendizados que a travessia de hoje pode ter.

3. Liderança é um estilo de vida

Segundo a maioria dos dicionários, liderança é “Liderança é a arte de comandar pessoas, atraindo seguidores e influenciando de forma positiva mentalidades e comportamentos.”. Até o início do meu Summer Program, se eu ouvisse essa frase, pensaria imediatamente em um CEO de uma grande empresa ou no presidente de uma Nação poderosíssima.
Depois de tantas discussões e aprendizagens, todo este senso comum sobre o que é, verdadeiramente, ser um líder, foi totalmente desconstruído.
Exercer liderança não é querer mandar nas pessoas e exercer controle. Ser um líder é respeitar aqueles que você lidera, buscando sempre tomar decisões capazes de motivá-los e melhorar a vida deles. Ser um líder é ser compreensivo, empático e ter compaixão, mas também fazer críticas construtivas quando for necessário. Ser um líder é não querer somente fazer a diferença, mas ser a diferença.
Muitas vezes, é uma tarefa um tanto difícil aplicarmos na nossa vida cotidiana este tipo de pensamento. Entretanto, é algo necessário, pois a liderança se manifesta nas pequenas atitudes.
Quando tento pensar em uma pessoa para exemplificar isso, a primeira que vem na minha mente não é Nelson Mandela ou Malala Yousafzai e, sim, Pablo Arosemena, um panamenho de 15 anos que tem sido uma grande amigo e uma inspiração.


Da esquerda para a direita: TianTian, Pablo e Ruth (eu), enquanto fazíamos um passeio pelo lago de Notre Dame

O campus de Notre Dame é algo imenso. Eu e meus colegas estamos sempre nos perdendo pelas diversas travessas e prédios. Sabendo disso, Pablo sempre anda com o seu mapa e, apesar de algumas vezes estar tão perdido quanto todos os outros, ele sempre tenta nos guiar da melhor maneira possível.

Essa é uma atitude que, inicialmente, parece ser muito simples, mas que existe uma grande quantidade de coragem e força de vontade. Ele poderia simplesmente não assumir nada, evitando cometer erros. Contudo, assumindo o risco e, ao mesmo tempo, se esforçando para tomar as melhores decisões, ele se torna uma inspiração de como que a liderança pode se manifestar nos detalhes da rotina de cada um de nós.

4. Encorajar aos outros é encorajar a si mesmo (a)

Panamenhos, nigerianos, nicaraguenses, alemães, quenianos, indianos. O que não faltava no iLED era gente diferente e interessante para conhecer. No início, a minha timidez tentou fazer com que eu não aproveitasse a experiência maravilhosa que me aguardava por fora das 4 paredes do meu dormitório. Por outro lado, eu sabia que conhecer e me envolver com tantas pessoas e culturas diferentes era a única forma de viver aquela experiência de maneira plena.
Então, eu comecei a me abrir mais a cada dia. Fui perdendo a vergonha do meu sotaque e aprendendo que estava tudo bem não lembrar da tradução de uma ou outra palavra, já que eu estava lá para, justamente, aprender.

Lembro que em uma das dinâmicas em grupo, os 30 estudantes foram divididos em duas equipes. Recebemos um total de 12 pratos, que simbolizavam pedras. Deveríamos utilizá-las para atravessar todo a grama do campo em que estávamos. O fator desafiador era que, se algum dos membros de nossos equipe encostassem na grama, toda a equipe (inclusive aqueles que já haviam percorrido o trajeto) deveria voltar e começar tudo do zero. O time vencedor seria aquele que completasse o desafio na menor quantidade de tempo possível.


Durante a dinâmica, eu tive alguns problemas com os meus sapatos, de forma que eu não estava conseguindo realizar da mesma forma que os meus colegas. Ao invés de me abandonarem, todo o time continuou dizendo palavras de incentivo, e duas das minhas colegas decidiram me esperar e me ajudar a solucionar a minha dificuldade, quando elas podiam ter me abandonado e completado sozinhas a parte delas. Neste momento, elas não estavam pensando somente nelas, mas exercendo a empatia e buscando que todos completassem o percurso.

No final do curso, o que verdadeiramente fez com que os dias que passei em ND se tornassem os melhores da minha vida não foi só a beleza do campus da universidade e, muito menos, os conhecimentos que adquiri através das aulas de arquitetura, psicologia, economia, liderança, entre outras, que tive. Os dias que passei naquele local se tornaram tão memoráveis pois o meu foco não era fazer com que somente eu me saísse de lá uma líder, mas também fazer com que todos que estavam ao meu redor fossem transformados.

Conquistar os nossos objetivos não é uma tarefa fácil. Exige extremo esforço, dedicação e fé. Ao mesmo tempo, de que adianta alcançar tudo, mas estar sozinho? As pessoas que estavam ao meu redor durante cada uma das aulas e das atividades foram aquelas que mais me ensinaram a liderar, pois não era sobre mim e, sim, sobre nós.


No início do programa, eu era uma garota de quinze anos que estava rodeada por completos estranhos e queria modificar o mundo, mas não sabia direito como fazer isso. Após as duas semanas que passei lá, eu saí como um dos membros de uma família e de uma comunidade internacional de jovens engajados em não só mudar o mundo, mas ser a mudança.

Newsletter

Cadastre-se para receber novidades sobre o Ismart.