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Como a LALA me mostrou que sou um vagalume

14/08/19

Por: Ruth di Rada

Apesar do nome, a Latin American Leadership Academy (LALA) – Academia de Liderança da América Latina – é muito mais do que um acampamento que busca incentivar jovens líderes latinos.

Do dia em que visitamos o Instituto Favela da Paz, rede de empreendedores sociais e culturais cuja sede se encontra no Jardim Ângela.

A partir de uma experiência imersiva de 7 dias, que ocorrem em países como Colômbia, México, Argentina, Brasil, entre outros, o foco dos bootcamps é inspirar a juventude a solucionar problemas sociais e econômicos enfrentados pelo continente. No Brazilian Leadership Bootcamp 7 (BLB7), entre os dias 14 e 20 de julho de 2019, apesar de não ter saído de São Paulo, minha cidade natal, fui transformada. Saí de lá sendo outra pessoa pois um dos princípios do LALA é que a inspiração se dê por conta da busca pela sua própria verdade, de modo autêntico.

Da esquerda para a direita: Isabela (ISMART SJC), Gabriel (AP) e eu.

Enquanto amante das artes e, sobretudo, da literatura, sempre me senti um pouco deslocada em grande parte dos eventos que frequento sobre empreendedorismo. O objetivo desses encontros, às vezes, acaba sendo muito mais o propósito final e nos esquecemos da importância do processo. Seminários respondendo perguntas como: “como ser um líder em 10 passos? Quais são os segredos dos grandes empreendedores mundiais?” podem até nos ajudar; mas, dificilmente nos ensinarão na prática a importância de “ser”, muito mais do que “falar”. Na LALA, pude sentir a cada segundo que trabalhar com literatura e política, por serem coisas que fazem os meus olhos brilharem de forma verdadeira, pode ter tanto impacto social quanto criar um projeto sobre sustentabilidade, por exemplo.

Como apresentação final, decidi ler um texto meu sobre “Literatura como forma de Sensibilização e Resistência”. Sentamos em roda no chão e pedi para que todos fechassem os seus olhos e mergulhassem comigo em uma das minhas paixões.

Se tem uma coisa que eu aprendi durante essa experiência é que, definitivamente, não se aprende a ser um líder somente assistindo a uma palestra. A liderança já está em mim – ou, melhor, ela já está em nós. O que precisamos, através da busca por nossas verdades únicas, é deixá-la florescer. Esse processo de nascimento ocorre, sobretudo, a partir do entendimento e da valorização que temos quanto à nossa história. Sim, nossa história. Não apenas a história de vida que eu tenho enquanto indivíduo, mas também a narrativa que eu construí ao longo da minha vida nas comunidades das quais faço parte.

Sentados em roda, fazendo dinâmicas em grupo ou, até mesmo, jogando papo fora de madrugada com os grandes amigos do Brasil inteiro que fiz (Amapá, Ceará, Piauí, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e membros de tantos outros estados), durante 7 dias, eu me senti o tempo todo escutada. Cada palavra, vivência, piada, história de vida que eu e meus colegas contávamos era apreciada por todos com a maior atenção do mundo. Estávamos presentes, sem passados ou futuros.

Em uma de nossas rodas de conversa enquanto conversávamos sobre a importância de “encher o copo”.

Quando apenas com 16 anos você começa a se envolver com projetos sociais que visam a construção de um mundo mais igualitário, diversas vezes, acabamos nos sobrecarregando com muitas responsabilidades. Uma coisa que pude entender é a importância de “encher o copo”, isto é, fazer coisas que te deem energia para continuar impactando a sociedade, sem se deixar ser dominado pelo estresse. Além disso, é impossível mudar o mundo sozinha(o). Amigos importam (e muito!).

Da esquerda para a direita: Ana Júlia (SP), Gabriella (ISMART RJ), Thamyres (RJ), eu, Anderson (MG) e Tássia (BA), enquanto dançávamos em um momento de descontração no Instituto Amani.

Vulnerabilidade, comunidade, conexão, afeto, amor. Eu poderia passar páginas e páginas listando palavras para descrever o quanto que estar no acampamento mudou a minha vida. Porém, sei que nunca será o suficiente. Em uma única palavra: viva! Viver a LALA fez com que eu me sentisse viva, genuinamente. E, já que sei que o vocabulário objetivo e formal não dá conta da completude que foi essa semana, deixo abaixo um texto que escrevi em agradecimento às outras 33 pessoas incríveis que passaram por essa experiência junto comigo, como uma tentativa de colocar em palavras algo inexplicável. A LALA não foi o fim, mas apenas o começo.

Flores no centro da nossa roda de conversa envolvida por nossos diários.

Vagalumes

“Filha, por que você está chorando?”

Essa noite sonhei mais uma vez.

Sonhei com um mundo em que a palavra “uniquidade” está nos dicionários,
A intenção e o impacto andam de mãos dadas,
Os artistas sabem a hora de saírem de cena.

Sonhei com um mundo que é um organismo vivo transpautado,
Em que eu podia sentir medo todos os dias,
No qual distâncias não existem ao fechar os olhos.

Sonhei com um mundo em que gritar “que saco!” é a maior demonstração de afeto,
A intuição é a água da mente,
O silêncio de cada lágrima minha é escutado.

Sonhei com um mundo de convites, entregas e “estares”,
Diplomas que são só pedaços de papel,
E a vulnerabilidade é rainha com o seu poder de conexão.

Sonhei com um mundo de amor que a minha literatura é incapaz de traduzir.

Acordei, e vi que não estava sonhando.

O sonho não está só na Pousada dos Franceses, na garagem do Instituto Amani, no laboratório do Instituto Favela da Paz e muito menos nas nossas camisetas “lead the change”.
O sonho não “era”, tampouco “estava”.
O sonho está.
O sonho é.
Nós somos o sonho.
A América Latina e o mundo aguardam fazer parte desse delírio verídico.

Nenhuma foto solo, porque vocês fazem eu não me sentir sozinha.

Disse à minha mãe que estava chorando porque vocês me tornam viva, vagalumes.
Que a nossa luz continue brilhando de Macapá à Singapura até que nossos raios se reencontrem.

Com carinho, admiração e profunda gratidão,
Ruth.

Do dia em que conversamos e nos inspiramos com a energia do Lucas Caldeira Brant, idealizador dos projetos “Entrega por SP” e “Projeto Lavanderia”.

 

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