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LALA e a importância de uma rotina não episódica

14/08/19

Por: Vinícius Mantuano

Olá gente, tudo bem? Aqui quem fala é o Vinícius Mantuano, eu tenho 17 anos e estudo no 3° ano do Colégio de São Bento, no Rio de Janeiro. Hoje, vou falar um pouco sobre a minha experiência no 17° bootcamp da LALA (Latin America Leadership Academy) em Medellín, na Colômbia. Então senta que lá vem história!

Tudo começou no início deste ano, quando descobri a LALA por meio do meu amigo José Wallison, durante uma conversa que o mesmo estava tendo com meu outro amigo Paulo Victor Vaz. Após pesquisar mais um pouco sobre o programa me encantei pela sua proposta e pelas atividades propostas, que envolvem oficinas, palestras e gincanas, além de uma visita incrível à uma comunidade local, falarei mais sobre isso depois. Decidi então aplicar, meio receoso por ser algo completamente novo e super entusiasmado e ansioso pelo resultado. Após passar da primeira fase veio um alívio enorme, “pelo menos eles gostaram de mim”, pensei, logo, era a tão temida hora da entrevista. As coisas não começaram muito bem, marquei a entrevista com o Marcelo (staff da LALA) em uma quarta feira, entretanto, a minha internet não quis colaborar e eu percebi o quão ruim era a câmera do meu celular. Ok, sem problemas, ele disse, podemos remarcar. Entrevista remarcada para sexta feira à noite, agora vai. E realmente foi, a entrevista foi um sucesso, e no dia 16 de maio recebi um dos melhores emails da minha vida: havia sido aprovado para o bootcamp da Colômbia. \0/

Junto com a alegria de ter passado, veio a preocupação, o programa tinha um custo total de 5500 reais, dos quais eu apenas precisava pagar 1000 por conta de uma bolsa que recebi da própria instituição, além disso tinha a questão da passagem, Medellín era bem longe.

Então, mãos a obra! A primeira sugestão dada pela LALA em situações como essa são ferramentas de financiamento coletivo, como o site “vakinha”. Se você está lendo isso, muito provavelmente ficou sabendo da campanha Mantuano na Colômbia que ocorreu durante o mês de junho visando justamente arrecadar fundos para a viagem. Além disso,
minha mãe e eu organizamos uma rifa de 100 números valendo 20 pães de mel artesanais recheados, um baita prêmio gostoso. Brincadeiras a parte, com a soma dos valores da vakinha, da rifa e da ajuda com as passagens da minha tia Estela, consegui arrecadar o total necessário para a minha viagem.

Agora sim era hora de comemorar, estava tudo certo para a minha viagem para Medellín e apenas restava fazer as malas e me preparar para a melhor semana da minha vida inteira. Malas prontas, chega então o tão esperado dia 21 de julho (no caso o programa teria início apenas no dia 22, mas o meu vôo de ida demorava ao todo -incluindo conexões- quase 20 horas). Muitos dos meus familiares foram me levar no aeroporto, sempre me dando dicas e
conselhos sobre viagens e me alertando sobre qualquer risco potencial que pudesse aparecer. 21:40 da noite, chega à hora de embarcar para o meu primeiro vôo com destino à Guarulhos, São Paulo. Mas antes, um pequeno adendo, minha mãe pediu que eu gravasse trechos da viagem e uma parte deles está no meu instagram (@mantsdesu) porém
infelizmente a maioria deles é da ida, pois não me atendeu para o fato que as tomadas na Colômbia são diferentes e esqueci de levar um adaptador, tornando o meu uso do celular lá muito mais restrito. Voltando à São Paulo, madruguei no aeroporto e aproveitei a noite para conhecer um pouco mais das poucas lojas que estavam abertas meia noite. Às 3:50 da manhã embarquei para Lima, Peru. Chegando em Lima por volta das 7:00 da manhã e
tendo dormido muito mal à noite, resolvi começar a escrever sobre as minhas expectativas da viagem, e sinceramente, acho que todas elas foram mais que cumpridas.

Embarquei finalmente para Medellín às 13:00 e as músicas que ia escutando ajudavam a controlar a minha ansiedade para o tão esperado início do programa. Cheguei em Medellín por volta de 16:50 e logo de cara já me preocupei com a ausência de uma pessoa segurando a prometida placa de “SOMOS LALA”, porém minutos depois, logo encontrei com a Lili e a Florencia, outras duas pessoas que fariam o bootcamp e em poucos minutos o motorista chegou e fomos para o hostel. Chegando lá fomos recebidos pelo David que nos encaminhou para o restaurante onde pudemos conhecer o resto dos alunos e tutores que nos acompanhariam durante a próxima semana. Mais tarde, tivemos a primeira sessão efetiva do bootcamp no hotel inntu, onde discutimos sobre o propósito daquela semana nas nossas vidas e fizemos combinados sobre respeito para garantir o melhor andamento possível do programa.

Gostaria realmente de falar sobre todas as experiências que tive durante os sete dias de duração da LALA, mas creio que palavras não podem definir o quão importante esse período foi para a minha formação pessoal, além de que
tantas atividades não caberiam em apenas um texto, logo, farei um resumo de cada um dos dias e no fim falarei sobre o impacto do programa em mim e o que eu pude aprender com o mesmo.

Bem, como já disse segunda foi o dia de introdução ao programa, revisão de regras e estabelecimento de acordos e diretrizes. Já terça, bem, eu poderia dizer que terça foi o melhor dia da minha vida. Terça feira foi o dia de aprendizado intra e inter pessoal. Nós fizemos uma série de gincanas e atividades para nos conhecermos melhor, como uma lista de 7 coisas que nos representassem. No final do dia, andamos pela sala de olhos fechados pensando em coisas que nos dessem medo, nos nossos “eus” mais jovens e em momentos de esperança que tivemos. Após isso compartilhamos o que pensamos e sentimos com todos, o que foi um momento maravilhoso de vulnerabilidade e amor. Por falar em vulnerabilidade, essa palavra marcou demais nossa trajetória na LALA, aprendemos o quão
importante era demonstrar suas vulnerabilidades e quanto elas podem impactar na nossa vida na nossa personalidade.

Quarta feira foi o dia de visita à comunidade, fomos à comuna 13. Sim, é um pouco confuso, mas me deixe explicar, a cidade de Medellín é dividida em 16 comunas e cada uma delas tem seus próprios bairros. As comunas 12 e 13 eram
conhecidas internacionalmente pela sua periculosidade devido ao recorrente tráfico de drogas da região. Felizmente, após uma série de ações positivas da comunidade, ocorreu uma grande reviravolta no cenário local, através de uma série de movimentos artísticos e culturais a população conseguiu reverter o cenário violento da cidade e transformar o local em um grande ponto turístico. Por isso, a comuna 13 tem uma importância imensa para Medellín e foi uma honra imensa poder aprender um pouco mais sobre essa rica região da cidade.

Visitamos a Casa Morada, um centro cultural local responsável por acolher jovens da comunidade em diversas atividades artísticas. Além de promover um excelente trabalho na manutenção da memória da comuna, através de pinturas grafites de pessoas que sofreram com o período de ausência do estado e do projeto Agroarte, que consiste em uma plantação com inúmeras plantas, cada uma simbolizando uma vida perdida ou desaparecida. Tivemos a oportunidade de ajudar nesse projeto, fazendo a manutenção de algumas plantas e plantando novas, uma experiência que jamais esquecerei. Na parte da tarde fomos recebidos pela Carol, uma moradora local participante de projetos na comunidade que nos guiou pelas ruas da comuna explicando a história e a importância das
transformações sofridas para as vidas dos moradores. No fim do dia visitamos a Casa Redonda, um espaço de coworking localizado próximo ao hotel criado com o intuito de tornar o trabalho algo verdadeiramente divertido. Lá, pudemos aprender muito sobre a importância do amor e da perseverança na hora de enfrentar desafios cotidianos.
Quinta e sexta foram dias de aprendizado sobre o mundo externo, como lidar com problemas e reconhecer as nossas próprias comunidades. Aprendemos a fazer perguntas de forma a envolver a pessoa entrevistada com a nossa história é consolidar uma rede de contatos produtiva e útil para nossos projetos futuros.

Na sexta feira tivemos um jantar muito especial, onde recebemos uma série de pessoas super capacitadas com diversos projetos ao redor do mundo, elas compartilharam conosco suas experiências de vida e histórias. No fim, conseguimos aumentar ainda mais nossas redes de contato e fazer verdadeiros amigos devido à algumas similaridades pessoais. Sábado foi uma grande mistura de gratidão, felicidade e tristeza. Tristeza por reconhecer que era praticamente o último dia do programa e que teríamos que nos despedir dos nossos amigos. Felicidade, claro, pois aquela havia sido a melhor semana das nossas vidas e as experiências que tivemos ficariam para sempre nos nossos corações, além de que agora éramos pessoas preparadas para fazer verdadeiras transformações nas nossas comunidades. E gratidão porque começamos a trabalhar mais ativamente nos nossos projetos de agradecimento
para os nossos “hóspedes”, todas as pessoas que nos ajudaram durante aqueles 5 dias para tornar nossa vida melhor e nos capacitar ainda mais. Escrevemos um texto, fizemos uma série de desenhos e uma música, dizendo obrigado do fundo dos nossos corações. À noite, tivemos apresentações das nossas ideias individuais para mudar nossas realidades, explicando tópico, a importância dele e o que nós pretendemos fazer.

Chegamos então finalmente ao domingo, o dia da despedida. Tivemos ainda algumas atividades sobre como aplicar o que aprendemos durante a semana e recolhemos as cartas do “Gratitude wall” ou mural da gratidão (um projeto para agradecer aos outros estudantes por tudo o que eles fizeram por nós, como um abraço, uma conversa, uma piada). E então, aeroporto novamente. Nos despedimos por volta das 12h e pegamos a van para o aeroporto internacional de rio negro, próximo de Medellín. No caminho, choramos bastante e relembrarmos de todas as coisas maravilhosas que vivemos.

A volta foi um tanto quanto, conturbada eu diria, pelo menos a segunda parte dela. Eu saí do aeroporto de Medellín junto com outras 5 alunas, sendo 4 delas do Brasil. Pegamos o mesmo voo para Bogotá e chegamos por volta das 18h. Andamos bastante pelas lojinhas buscando alguns presentinhos para familiares e depois fizemos um lanche. Porém, às 20h tivemos que nos despedir, o vôo delas iria para São Paulo e o meu -que só seria 23h- iria para Santiago, no Chile. Após embarcar tudo o que eu mais queria era dormir, mas meu organismo infelizmente não deixou. Sendo assim, passei a noite acordado vendo filmes no avião e cheguei em Santiago por volta das 5h da manhã. No Chile, comprei outras coisinhas, como uma alpaca de pelúcia e um chaveiro. Na volta para o Brasil é que ocorreu
o problema, um sanduíche que eu comi no avião não me fez nada bem, e me deixou passando mal por 3 dias depois da minha chegada.

E assim acaba a minha odisseia por Medellín, mas não o nosso texto. Agora gostaria de falar um pouco de como a LALA impactou a minha vida e das lições que eu aprendi no programa, lições estas que eu gostaria de trazer de implementar no meu país, na minha realidade. Devo dizer que fui exposto à uma série de pessoas incríveis e maravilhosas, e além de tudo, humanas e gentis. Pude me sentir em casa, ou até mais que isso, ser quem eu realmente sou, amar cada alma intensamente até o último minuto, abraçar sempre que necessário, demonstrar o quão importantes eles eram pra mim. Não me arrependo de nada do que fiz naquela semana, creio que meus melhores amigos são de lá e eu me sinto muito honrado por ter a chance de conhecê-los.

Aprendi também que o amor não é só importante, o amor é necessário, imprescindível, o amor é tudo e deve estar em todo lugar, em todas as relações. Aprendi a compartilhar esse amor que eu sinto com o mundo, pois é esse amor que nos mantém vivos e nos dá esperança para sonhar com um mundo melhor. E por fim, gostaria de falar que eu adoraria se a minha escola fosse que nem a LALA, se o mundo fosse que nem a LALA, compreensivo e vulnerável, receptivo, acolhedor. Mas o mundo não é, e isso só me motiva a lutar cada vez mais para que ele seja assim.

A rotina foi outra coisa que me marcou bastante nesse período. Ela existiu, esteve sempre presente, mas os dias passavam com uma suavidade tamanha que por mais que fossem repetitivos de certo modo (com horários e compromissos), fluíam serenamente nos nossos corações, pois sempre fazíamos atividades diferentes, conhecíamos pessoas diferentes. Os tutores e toda a staff da LALA nunca esteve acima de nós, sempre sentávamos em uma grande roda, todos no mesmo patamar com o mesmo direito de fala, compartilhando as suas experiências com as mesmas prioridades. E TUDO AQUILO FUNCIONAVA, e funcionava tão bem que eu me encantei e comecei a refletir o porquê da minha escola não ser assim. Rotina é um conceito necessário na vida humana, mas ela não precisa ser
repetitiva, enjoativa, episódica.

Fica então como lição que o amor é a coisa mais poderosa do mundo, e que só através da apreciação da beleza nas pequenas coisas, podemos fazer grande mudanças. E é isso que vamos fazer, mudanças! Vamos mudar nossas comunidades, nossos bairros, nossas cidades. Se preparem e venham conosco, porque nós vamos mudar o mundo! Nós vamos liderar a mudança. Nós seremos a mudança.

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