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#PALAVRADOESPECIALISTA – Entrevista com Rosemeire Rangni e Celso Lopes de Souza.

07/08/20

Conversamos com os palestrantes do nosso Encontro com Educadores 2020, Rosemeire Rangni e Celso Lopes de Souza para esclarecer mais algumas dúvidas dos educadores que fizeram parte do evento. Confira!

Rosemeire Rangni e Celso Lopes de Souza foram nossos convidados do 13º Encontro com Educadores da Rede Pública. Rosemeire é pedagoga, doutora em Educação Especial e professora da Universidade Federal de São Carlos. Celso é psiquiatra, professor da educação básica e criador do Programa Semente, um projeto de aprendizagem socioemocional utilizado por mais de 35 mil alunos em escolas de todo o Brasil.

No dia do evento, fizemos um bate-papo com os dois especialistas, respondendo as principais dúvidas dos educadores inscritos. Esse bate-papo e demais palestras gravadas dos convidados, além de muitos outros conteúdos, continuam disponíveis para você, que pode conferir clicando aqui.

Desta vez, conversamos novamente com eles para responder mais algumas perguntas registradas no nosso fórum. Acompanhe a entrevista:

1- Quando se detecta um aluno com altas habilidades, como proceder? Qual é o próximo passo?

Rosemeire: A partir do ponto de vista escolar, quando há uma suspeita de que o(a) aluno(a) destaca-se em relação a seus pares, o recomendável é proceder uma avaliação psicopedagógica. Caso a avaliação seja positiva para indicadores de altas habilidades, registrá-lo(a) em cadastro nacional e elaborar um planejamento educacional individualizado de forma que o(a) aluno(a) receba a resposta educativa às suas necessidades especiais. É importante que esse processo seja realizado com a equipe escolar, que a família esteja ciente e participativa. Se o sistema escolar em que esse aluno(a) estiver matriculado(a) contar com serviço psicológico, também é aconselhável encaminhá-lo(a). Vale destacar, ainda, que orientação à escola sobre a temática de altas habilidades traz resultados satisfatórios, minimizando barreiras atitudinais entre professores e colegas para com esse aluno(a).

2- Muitas vezes a falta de conhecimento não identifica altas habilidades em crianças com transtornos. O que pode ser feito? Como abordar?

Rosemeire: Estudos sobre a temática da dupla excepcionalidade como podem ser denominados(as) alunos(as) que apresentam altas habilidades associadas a algum transtorno ou deficiência têm evidenciado dificuldades na identificação por muitas razões, entre elas, o desconhecimento das características de ambas especificidades que possam ocorrer nos alunos(as); as características podem ser confundidas, incidindo em mascaramentos; o olhar mais atento dos educadores às limitações dos alunos(as) com transtornos ao invés das capacidades, entre outras, são dificuldades para uma atuação eficaz no processo de identificação. A sugestão à equipe escolar (incluindo educadores especiais) que busquem conhecer as características das especificidades, encaminhem para profissionais especializados (multidisciplinar) para um parecer mais preciso. Vale ressaltar que a avaliação de casos de dupla excepcionalidade não é uma tarefa fácil como também o atendimento especializado, exigindo capacitação dos educadores e envolvimento da família.

 3- Como o governo pode colaborar com as escolas públicas nesta identificação e investimento das altas habilidade?

Rosemeire: A colaboração mais exigida e urgente, no meu ponto de vista, é uma capacitação dos educadores no âmbito mais amplo, desde a gestão pública educacional à equipe escolar, especialmente nas redes públicas, onde está a maior parte dos estudantes brasileiros. Atualmente, contamos com ínfimas 48.133 matrículas registradas no censo escolar, sendo que teóricos da área de altas habilidades (Gagné; Renzulli) apontam índices de 10 a 20% de pessoas com características de altas habilidades podem ser encontradas em qualquer população. Isso significa que o índice de matrículas registrado no censo escolar expressa negligência para esse público nas instituições escolares brasileiras. O investimento em capacitação para altas habilidades é importante porque o educador precisa conhecer o que buscar para identificar de maneira a propiciar o atendimento especializado, que também requer capacitação devido a heterogeneidade dos estudantes com altas habilidades. Investir nesses estudantes é imensurável, pois é dele o protagonismo dos avanços que se espera na sociedade.

4- Qual a possibilidade de aplicação do Programa Semente na rede pública de ensino?

Celso: O Programa Semente já entrou na rede de ensino, estamos na nossa primeira escola, no município de Campanha, em Minas Gerais, que vem fazendo um trabalho maravilhoso. Temos total interesse em ir para a rede pública e estamos abertos às Secretarias de Educação e também à parcerias, para gente expandir.

5- Como o Programa semente trabalha as diferentes habilidades?

Celso: O programa tem um momento focado no aluno com características. Ele é sequenciado, ou seja, tem uma linha condutora, uma progressão com metodologias ativas focadas em competências intencionais. Por exemplo, em uma aula em que a gente vai trabalhar a modulação da raiva, na verdade, a gente não trabalha essa competência sozinha, vem junto com controle de impulso, etc. A gente parte de atividades complexas com competências-alvo. Em uma das aulas que trabalhamos exatamente o controle de impulso, tivemos como competências-alvo o foco e a modulação da raiva. A atividade trabalhada naquela aula era uma percepção de injustiça, a raiva, uma forma de agir de modo inadequado e o que isso poderia causar. E também o foco, de estar focado naquilo que é mais importante, nos valores que são mais permanentes, não em estados emocionais transitórios, que são menos confiáveis.

6- Como instrumentalizar o docente para ensinar as competências socioemocionais?

Celso: A Semente Educação acredita que se não houver formação de professores, a aprendizagem socioemocional fica muito comprometida. É como se o aluno tivesse um momento focado na alfabetização e cada vez que ele sai da sala e vai para outra sala, as palavras estão grafadas cada uma de um jeito. A formação socioemocional do professor precisa ser feita de modo escalável e com os mesmos princípios utilizados pelos alunos: sequenciada, ativa e focada na versão professor. Com plataformas, self-learning, que é o que a gente faz no Programa Semente. Essa formação precisa ser muito bem mapeada e seguir um itinerário, um percurso, para que o professor, primeiro, compreenda as competências socioemocionais – a gente consegue uma regulação taxonômica, com todo mundo começando a falar a mesma coisa – e tenha estratégias de como desenvolvê-las. Até para que, mesmo que ele(a) não consiga desenvolver em si mesmo, pelo menos tenha estratégias quando um aluno perguntar: “como eu posso ser mais persistente?”. O professor precisa ter um background formativo para este tipo de pergunta.

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